O Pai Natal abotoou a camisa, enfiou uma camisola grossa e, por fim, vestiu um casaco vermelho, feito à medida, com uma gola de lã.
«Que tempo para sair!», disse para si próprio, enquanto o vento uivava lá fora, atirando o granizo contra as janelas. «Está é um tempo para me sentar à lareira, a comer bolachas e a tomar um chá quentinho e reconfortante.»
Aproximou-se do espelho e sorriu. Estava pronto para a grande Noite de Natal.
«É engraçado que as crianças pensem que sou gordo. Com tanta roupa em cima...!»
Lá fora, Rodolfo e as outras renas esperavam-no, impacientes. Estava tanto frio que os patins do trenó estavam congelados e as patitas das renas estavam enregeladas. Era preciso porem-se em movimento.
O Pai Natal comprovou uma vez mais se tudo estava em ordem e arrancou a toda a velocidade, através de uma cortina de neve.
«OH! OH! OH!» O Pai Natal deveria soltar uma gargalhada exultante, tão forte que ecoasse pelos céus e fosse ouvida por todas as crianças do mundo cristão. Mas naquela noite tão gélida, a voz saiu hesitante e rouca.
- Mas que época horrível para se comemorar o Natal! - exclamou ele, dirigindo-se a Rodolfo. - Este ano está cá um Inverno...
A rena sacudiu a neve que cobria as campainhas do trenó.
- Concordo totalmente. , anuiu Rodolfo. - Não está tempo para viajar. Além disso, as renas podem escorregar nos telhados e partir uma pata.
Quando regressou ao telhado, depois de um enorme esforço a trepar pelo mesmo buraco, resmungou:
- Nunca mais! Nunca mais! No próximo ano, o Natal deverá ser festejado muito antes.
- Muito antes? - perguntou Rodolfo, sacudindo a neve do seu dorso.
- Em Julho! - disse o Pai Natal, sentindo-se mais animado com este pensamento. E soltou uma forte gargalhada: «OH! OH! OH!»
O mês de Julho chegou. O Pai Natal estava tão ocupado a preparar os brinquedos que nem tivera tempo para férias. Rodolfo também andava atarefado a preparar o carro de seis rodas. O trenó era inútil, em pleno Verão.
O Pai Natal barbeou-se, pois só se deixa crescer a barba no Inverno, por causa do frio, vestiu uma camisa de manga curta e uns calções e calçou umas sandálias.
«- Sinto-me em plena forma!», pensou ele, mirando-se ao espelho.
Depois, com o carro carregado de presentes, puxado pelas renas, foi dar a sua volta ao mundo. Devido à onda de calor que se fazia sentir, era fácil calcorrear os telhados e entrar nas chaminés. Na primeira casa, a descida foi muito fácil. Quando pisou o chão da sala, sacudiu a cinza que se agarrara à camisa e olhou à volta. Só então deu conta de que algo não batia certo. A casa tinha um aspeto solitário e vazio. Não havia ninguém a esperá-lo. A sala não tinha árvore de Natal com as luzinhas a piscar, enfeitada com grinaldas e bolas brilhantes. Pouco a pouco, compreendeu o que se passava.
«Partiram para férias e nem pensaram sequer em mim.», protestou ele, sozinho.
Nem sequer havia sapatinhos para colocar os brinquedos. Surpreendido e aborrecido, regressou ao telhado, murmurando entre dentes: «Queres saber a melhor, Rodolfo? Não estavam à minha espera.»
Rodolfo não lhe prestou atenção, pois estava ocupado a sacudir as moscas e outros insetos que teimavam em pousar nas suas orelhas.
O mesmo aconteceu em todas as casas: ou estavam de férias ou as crianças estavam acordadas e a brincar nas ruas. Inclusivamente, uma família chamou a polícia porque ouvira ruídos estranhos no telhado.
«- Um ladrão está dentro de uma casa!», gritaram ao telefone. «- E há outro no telhado.»
- Nunca mais! Nunca mais! Natal no Verão, NUNCA MAIS!», gritou o Pai Natal, visivelmente mal-humorado, saltando para o carro de seis rodas e "galopando" pelos céus, a toda a velocidade. Com os solavancos e sacudidelas, alguns brinquedos saltaram do carro.
Rodolfo e as outras renas já tinham saudades das viagens suaves de trenó, nas noites estreladas e frias de Dezembro. E no céu soavam canções de Natal, em vez de sirenes da Polícia.
Não foi preciso esperar muito. Dezembro chegou e, com ele, a noite de Natal. O Pai Natal aperaltou-se, como habitualmente. Já tinha saudades do seu casaco vermelho e das botas pretas. Rodolfo foi buscar o trenó e, carregadas as prendas, voaram pelo céu, ao encontro das crianças.
«OH! OH! OH!» O Pai Natal soltou uma gargalhada exultante, que percorreu os céus cristãos.
Vaz Nunes (Natal 2010)
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